terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Folhas de um diário

A muito tempo eu já deveria ter escrito sobre ele, porem, o medo de que alguém achasse este pequeno caderno, que agora é meu diário, e lesse tudo o que esta acontecendo com meus sentimentos seria cruel para mim, mas não da mais para eu ficar guardando esse sentimento, parece que meu coração é uma bomba e a qualquer momento ele pode explodir sem ninguém ao menos ver ou perceber, e então estarei despedaçada por dentro, a minha única saída são essas folhas do pequeno caderno que encontrei jogado no quarto de minha irmã mais nova.

Bom, desde que eu tinha 3 anos que foi quando a fabrica onde meu pai trabalhava, faliu, perdemos tudo e viemos morar no famoso Complexo do Alemão, mesmo não tendo muito dinheiro, nossa casa é a melhor que tem neste lugar, minha mãe é do tipo que deseja ver a filha dela ocupando um cargo muito importante em alguma empresa ou até mesmo sendo autônoma, por isso e outros motivos, sempre estudei na melhor escola publica da cidade, já que não tínhamos dinheiro para pagar uma escola particular, mesmo essa escola ficando longe de casa, meus pais acordavam todos os dias cedinho comigo, minha mãe me levava para escola e meu pai ia trabalhar, quando Julia nasceu, minha irmã mais nova, meu pai me levava para escola e só depois ia trabalhar. Porem, assim que completei 15 anos e iria entrar no 1º colegial, decidi que precisava tomar um rumo melhor para nossas vidas, então resolvi fazer uma prova para conseguir uma bolsa na melhor e mais cara escola que tem no Rio de Janeiro, consegui e foi la que tudo começou.

Cheguei completamente perdida e como em toda escola particular os alunos já sabiam que eu era bolsista, todos que estavam la eram completamente “filhinhos de papai”, ninguém se deu o trabalho de me mostrar onde era a sala que eu estudava, nem mesmo a monitora, tive que me virar sozinha naquela escola enorme, não foi nada fácil, quando encontrei minha sala, todos já estavam sentados e a professora já estava na sala de aula, bati na porta com o maior respeito, pedi licença e me sentei, mesmo assim a professora me deu a primeira bronca do ano. Sentada no canto do fundo da sala, prestei a atenção nas atitudes de todos e foi impossível não notar aquele garoto que como todo adolescente, estava fazendo bagunça, ele era lindo e todas garotas ficavam em volta dele, finalmente bateu o sinal para o recreio, mais um desafio na nova escola, neste lugar não serviam comida de graça e a cantina era muito cara, passei fome no primeiro dia, mas foi graças a essa fome que conheci Mariana, ela era a menina mais rica da escola, mas ninguém sabia disso, uma garota linda, simpática, meiga e cativante, ela era diferente de todos daquele lugar, ela era humilde, pois foi ela que me ofereceu um pedaço de seu lanche, mas com vergonha não aceitei. Neste recreio ela deixou suas amigas de lado só para me acompanhar e a partir disto começamos a conversar todos os dias, ela estudava em minha sala e me fazia sentar ao lado dela na primeira carteira. Ela era do tipo de filha que todo pai quer ter, obedece tudo o que é lhe pedido, presta atenção nas aulas e não é do tipo de garota saidinha. Com o tempo fomos nos conhecendo melhor e então descobri que o garoto que eu admirava todos os dias era irmão dela e que todos os amigos do irmão dela achava ela a menina mais linda da escola, não apenas só os amigos do irmão dela mas quase toda escola, porem, ela nem ligava para isto. Mariana se tornou minha melhor amiga, mas nunca levei-a para minha casa pois seria muito arriscado, já que acontecia muita coisa naquele lugar que muita gente nem imaginava. No Morro do Alemão, eu tinha minhas amigas e todos os dias sempre contava a elas o que acontecia naquela escola de “playboy” e não deixava de comentar sobre o lindo garoto, porem, a história deste menino não poderia chegar nem perto de Pedro.
Pedro tem 17 anos e é o filho do chefe dos traficantes do morro e ele é igualzinho seu pai, perigoso,  ele nunca deixou de mostrar que é apaixonado por mim, mas eu nunca aceitei ter nada com ele e se ele descobrisse que eu estava achando um menino bonito na nova escola, o garoto estaria correndo perigo, por isso, essa história não foi escrita até agora, por medo de cair nas mãos de Pedro, já que aqui no Morro a fofoca corre rápido.
Como eu estava cada vez mais próxima de Mariana, comecei a freqüentar sua casa e assim fui conhecendo melhor seu irmão, Danilo, fomos ficando amigos e eu comecei a ser bem aceita na escola, me divertia todos os dias, já que agora não preciso mais fica acanhada diante deles, pois parecia até que tinham esquecido que eu era bolsista e que morava no Morro do Alemão, com o tempo as coisas pareciam ser bem mais fáceis do que eu imaginava, conseguia tirar notas boas em quase todas provas, menos em Espanhol, pois nunca tinha visto esta matéria e talvez por ironia do destino esta era a matéria preferida do Danilo, ele se propôs a me ajudar e a partir disto, parecia que eu estava vivendo a história de um filme de romance, a garota suburbana se apaixonou pelo palyboy e o palyboy se surpreendeu, descobrindo que aquela garota do morro alem de ser linda por dentro, tem uma história bonita e pode ser muito atraente. No começo para Danilo não foi nada fácil assumir que também estava apaixonado, mas eu deixei todo meu orgulho de lado e lhe falei tudo o que estava acontecendo comigo, que nem eu conseguia entender direito, foi só assim que ele decidiu me contar o que ele realmente sentia, parecia que ele estava esperando o momento certo, pois foi na hora do intervalo em um dia chuvoso que ele me puxou para o meio da chuva na frente de todos e me beijou falando que nunca tinha sentido aquilo por ninguém. Sem duvida alguma, começamos a namorar, contei aos meus pais, então minha mãe me sugeriu que não contasse a minhas amigas do morro, pois como todos já sabem a fofoca corre rápido e então eu e Danilo estaríamos correndo perigo, levei meus pais para conhecer ele, já que não podia trazer ele em casa. Logo em seguida ele me levou para apresentar aos pais dele, mas desta vez como namorada, para minha surpresa todos aceitaram com um sorriso no rosto. Então fica a duvida né? De onde vem meu sofrimento, já que tudo era tão lindo
Realmente, ele era o garoto que toda menina deseja ter, ele é atencioso, carinhoso, preocupado comigo, romântico, um ótimo garoto de família, eu tinha a sogra mais engraçada que alguém pode ter, minha cunhada era minha melhor amiga, meu sogro me adorava como uma filha e meu namorado o menino mais lindo da escola. Realmente eu estava vivendo um conto de fadas. Nosso namoro durou 2 anos, em encontros escondidos dos meus amigos do morro, em viagens, em festas que os pais dele fazia e chamavam a minha família sem nenhuma vergonha, as brigas eram raras. Mas foi ai que surgiu meu sofrimento, uma de minhas amigas la do Alemão, veio conversar comigo, dizendo que estava sentindo minha falta, que eu não estava mais conversando com ela e que eu tinha mudado muito, nem ficava mais em casa direito. Eu, não podia negar que isso tudo era verdade querendo ou não eu sentia falta dela, pois Géssica, antes de eu mudar de escola era a garota que eu mais confiava, então, resolvi lhe contar tudo o que estava acontecendo comigo, sobre as mudanças em minha vida durante esses últimos anos. Ela ficou surpresa e perguntou se alguém alem da minha família sabia desta história, disse que não e que era melhor que guardasse segredo, pois eu estava muito feliz e se mais alguém soubesse disto, minha felicidade poderia acabar.
Coloquei toda confiança que um dia eu tive nela e lhe contei tudo, mas foi 2 dias depois que eu descobri que na verdade eu quebrei a cara, pois Géssica sempre teve inveja de mim e eu nunca percebi isso, minha mãe sempre me falou mas eu nem dava atenção para o que ela falava, mas como dizem boca de mãe é santa e descobri que nunca devia ter acreditado em Géssica, pois foi ela que contou tudo para Pedro que veio tirar satisfações comigo. Neste momento meu medo foi maior que minha coragem, com arma na mão Pedro exigiu que eu me afastasse deste playboy, se não ele matava a Mariana e a Julia, minha irmãzinha, depois disto tudo ainda dava uma surrano em Danilo para seu rosto ficar deformado.
Não sabia o que fazer, vi minha vida toda acabando exatamente diante deste bandido. Sem reação alguma, aceitei e lhe prometi que sairia daquela escola, contei para meus pais e eles viram que não tinha o que fazer, eles sabiam como o Pedro era e então aceitaram minha decisão, na mesma hora fui até a casa de Mariana e lhe contei o que tinha acontecido, ela não aceitou que eu me afastasse e pediu para que eu fosse na policia, mas isto não ia adiantar nada, já que a policia já não tinha domínio nenhum no Alemão, encontrei seu irmão pela ultima vez beijei-o de uma forma que jamais vou esquecer, foi o beijo mais bonito de toda minha vida, naquele momento parecia que todo sentimento mais belo que existe no mundo estava nos envolvendo. Ele, também não aceitou nada disto, mas não tinha o que fazer, fui na escola e pedi minha transferência.
Quase um mês se passou e a vontade louca de estar ao lado de Danilo não dava mais para suportar, ele me ligava todos os dias e assim ficava mais difícil ainda, então, ele decidiu que iria vir me ver, não contou a ninguém nem a mim, simplesmente deixou um recado no celular de sua irmã dizendo que não poderia sofrer.
Olhei pela minha janela e vi Danilo, subindo o morro, sai correndo de casa e fui ao encontro dele, desesperada implorei para que ele voltasse e não subisse mais aqui, pois era perigoso, ele não me escutou e me abraçou forte e me deu um beijo, esse foi o ultimo contato dos lábios mais apaixonado que o Rio de Janeiro inteiro já viu, pois neste exato momento Pedro apareceu e deu um tiro nele diante de mim, não soube o que fazer, só chorava muito. Com o barulho do disparo perto de casa, minha mãe saiu na janela para ver o que estava acontecendo, pois ela viu quando eu sai correndo de casa, ao ver aquela cena ela pegou o telefone e ligou para os pais dele, que no momento já sabia da história pois Mariana ficou preocupada com o que Danilo poderia estar fazendo e contou a eles, depois de algum tempo a ambulância chegou e levou dentro dela o garoto que eu mais amei em toda minha vida.
Acabei de chegar de seu enterro e não foi nada fácil ver que debaixo de toda aquela terra estava Danilo, o menino que eu faria qualquer coisa para ver seu sorriso novamente, para poder lhe abraçar, lhe beijar, sentir teu cheiro e o pior disto tudo é que eu sou a culpada de estar sofrendo tanto assim e de fazer tantas pessoas chorarem ao mesmo tempo e mais uma vez eu perdi tudo, perdi o menino que eu amo, perdi a confiança que eu tinha nas pessoas, perdi a vontade de voltar para casa. Essa dor me coroe e não são apenas 4 folhas de caderno que vão fazer eu esquecer o quanto eu amo este garoto e a raiva que eu sinto de Pedro, ele me tirou as coisas mais preciosa de uma garota, o sorriso, o amor, o carinho...  Para aquele morro eu não volto mais, estou com 17 anos e no final do 3º colegial, finalmente vou embora desta loucura e vou morar com Mariana, que junto a sua família não me culpa de nada e me da muito carinho, em uma cidade tranqüila de Minas para fazer minha faculdade de Direito, só assim terei a justiça da morte de Danilo e levarei a tranqüilidade aos meus pais e a minha irmã.  Agora que teve esse pente fino, espero que Pedro tenha ido junto, assim pode ser que tenha mais tranqüilidade para pessoas inocentes, mas nada resolverá o amor e a dor que eu sinto, essa dor só terá fim com a morte. 

Um comentário:

  1. poxa bem grande não li tudo xu, dei uma olhadinha por cima, mais mo bom parabéns

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